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sábado, 6 de abril de 2013

Nem Tudo Está Perdido

Sentada no sofá, percebe-se as pernas curtas balançarem e os calcanhares tocarem levemente o tecido do móvel; as mãozinhas cruzadas sobre as coxas devidamente cobertas pelo vestido branco com pequenas estampas vermelhas, o rostinho moldurado com madeixas negras e a face entristecida com olhinhos fundos e penosos. A pequena, em frente a TV assiste ao desenho animado que, por instantes, acalenta seu coração.
Algum tempo se passa e escuta-se vindo da garagem o barulho do motor, logo um homem alto, robusto, muito bem vestido em seu terno, entra "correndo" pela sala, então a pequena salta do sofá e agarra-se às pernas do homem de terno preto: "papai, papai, vem ver o desenho comigo"! - "Não filha, não tenho tempo, não tenho tempo". Então o homem tranca-se em seu escritório e não percebe que aquele rostinho angelical agora encontrava-se molhado por numerosas lágrimas.
A porta da sala ficara aberta, a menininha ainda a chorar sai por aquela porta em direção à rua. No pequenino coração carrega um sentimento do qual não conhece, é uma dor profunda, da qual os grandes, os adultos costumam chamar de amargura, mas as crianças ainda não possuem maldade suficiente para entender tão dilacerante dor. Na cabecinha pequena os pensamentos embaralham-se e, apenas um sobressaía, ela desejava encontrar um pai.
Começara a caminhar pelo quarteirão e logo estava no calçadão central do bairro, muitas pessoas caminhavam apressadamente, entre tantas, os olhinhos pequenos "grudavam-se" nos olhos masculinos dos homens toscos que por ali passavam. A cada olhada uma decepção, pois dentro dos olhos daqueles seres a pequena encontrava os mesmos sentimentos que cansara-se de observar dentro do próprio lar. As pessoas estavam preocupadas demais com seus empregos, horários, viagens, roupas, status... e os verdadeiros sentidos da vida haviam se perdido. A pequena continuava a caminhar numa busca frustrada por um olhar que propiciasse conforto, carinho, amor, compreensão, amizade, afeto... entretanto nada encontrara.
Depois de algumas horas caminhando, raiava o sol da tarde em alto céu, agora ela encontrava-se sentadinha ao lado de uma barraca (sem vendedor, sem clientes) de caldo de cana, parecia que o transe havia passado, ela jogava uma pedrinha em outra pedrinha que estava em sua frente, de repente as lágrimas novamente jorravam de seus pequenos olhos negros e, tristemente ela começava a entender o real significado da frustração.
O céu começara a sofrer grandes transformações, ventos fortes vindos do norte trouxeram nuvens negras que rapidamente "despencaram-se" sobre a terra; os ventos cessaram-se e uma chuva grossa porém calma encharcava o chão. A menininha continuava a chorar e suas lágrimas misturavam-se àquela chuva formando uma enxurrada tristemente bela.
Após alguns instantes de choro contínuo as nuvens abrem-se e raia uma luz no céu, os pequenos olhos negros observa um ser de aparência humana, porém com características divinas, secando lágrimas em seu manto branco.
Não houve palavras. A pequena da Terra observava o ser a chorar no céu. Agora uma chorava por não ter um pai, o outro chorava por perder os filhos.
Os olhares se cruzaram, então uma sublime transformação de sentimentos ocorreu, a pequena percebeu que jamais esteve só, que sempre houve  um pai a ampará-la, a sentir por ela todos os sentimentos confortantes dos quais ela sentia-se órfã. O ser no céu sorria divinamente, percebera que nem tudo está perdido, que o homem ainda poderá regenera-se consigo mesmo e com sua fé, que a humanidade, aparvalhada momentaneamente, carrega ainda um filete de luz, de bondade, de esperança para o bem. Então a pequena entendeu que Deus existe e que este sempre estará ao seu lado, que é o pai, o grande pai. E Deus, após um choro longo transformado em chuva, agora sorria alegremente, afinal o bem ainda existe.


Está chovendo...
Crente numa prosopopeia descabida,
Essa chuva que cai,
São as lágrimas de Deus
Hidratando a minha vida. 

terça-feira, 19 de março de 2013

O Mendigo



Ao longe avistei apenas os abutres. Eles atacavam de maneira voraz os restos mortais de um animal que encontrava-se em avantajado estado de putrefação, estavam todos à beira do grande recipiente de lixo, eram muitos, duas dezenas talvez. Em primeira impressão formavam um emaranhado negro que quando os olhos fixavam-se neles o cérebro trazia alusões às formigas negras, mas não eram formigas. De longe avistei apenas os abutres!
Adiantando o passo, chegando mais próximo, pude visualizar na calçada algumas crianças aparentemente desnutridas que caminhavam lentamente sustentando seus corpos franzinhos em pernas ainda mais franzinas. Alguns metros distantes da tétrica cena que envolvia minha atenção, um Volkswagen golf branco, vinha em marcha lenta pela via, o motorista que guiava o charmoso veículo parecia também envolvido com as cenas. O carro aproxima-se dos abutres e, tal proximidade provoca neles a reação natural de defesa, todos voam.
Agora diante daquele recipiente um velho homem de aspectos funestos dividia o espaço, menos concorrido desde o vôo das aves, com as crianças franzinas, todos aparentemente famintos e necessitados, reviravam o lixo em voltas e voltas à procura do alento, tal alento ao qual não sei necessariamente descrever.
Muitas perguntas se formam quando diante de cenas assim, meus devaneios conspiraram entre si e, então comecei a cogitar quais foram as razões que levaram aquele homem até ali: és “filho das ruas”, “algum viciado”, alguém com dores excessivamente fortes a ponto de tê-lo entregado-se ao desdém de uma “vida sem razão” ou quem sabe ainda, alguém com tantas razões que torna-se necessário o doloroso ato que “representa”; as conjecturas são muitas, as respostas são poucas. Certamente, seja como for ele tem um passado, uma vida, uma história...
Aquele homem era excessivamente mais triste que aquelas crianças, que mesmo diante do lixo brincavam e sorriam, enquanto o homem apenas recolhia o que lhe interessava fazendo com que, lentamente, seu sujo “saco de linhagem” tornasse cheio. Talvez as crianças tragam consigo a esperança como aliado, ou, como sabido de todos, quando criança não temos, ainda, a noção exata da disparidade social e de suas consequências, talvez aquele homem também não, talvez eu também não.
Nós todos somos mendigos em alguns estágio ou aspecto, muitas vezes por imposição ou devido a segregação que a vida impõe, tantas outras por plena ignorância.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Cumprimento

O sol estava escondido, talvez tenha-se envergonhando das agressões que vem provocando nos últimos dias, ele tem atacado de maneira tão feroz, que nós, reles humanos, ficamos todos em cárcere privado diurno, aguardando o momento em que a o "astro rei" desaparece no horizonte, para assim colocarmos nossas vãs existências às ruas. Entretanto naquela tarde escondeu-se entre as nuvens.
Na praça principal da cidade uma leve brisa balançava os galhos das árvores, enquanto alguns pardais degustavam as migalhas alimentícias que encontravam ao chão. Na calçada, donde as agências bancárias encontravam-se ao lado, dois seres distintos caminhavam em direções opostas.
Ele, o típico "gente boa", o servidor público respeitável, o bom pai, bom filho, esposo e amigo. Caminhava de maneira cambaleante, seu andar é diferente de qualquer outro que já tenhamos vistos, a cada passo uma palavra cantada poderia ser ouvida por quem tivesse ouvidos biônicos, ele sussurrava sua canção preferida, de qualquer sorte, podemos afirmar que se tratava de um homem são, alguém com as características psíquicas confiáveis.
Ela, com seus cabelos curtos, com a boca sem dentes, com seus trajes mal arrumados porém limpos; caminhava de forma cambaleante, enquanto seus olhos giravam em sentido horário em um segundo e anti horário no outro; era uma senhora pertubarda por inúmeros fantasmas, não possuía as características de uma mente sã, tratava-se de uma insana, de alguém sem o equilíbrio psíquico considerado natural.
E ambos iam em seus destinos, para um tudo parece transparente, para outro a obscuridade está no centímetro à frente do nariz, mas todas essas afirmações são conjecturas, não se sabe ao certo o acontecimento do próximo segundo.
E continuavam a caminhar. Aproximaram-se um do outro em suas razões e contradições, ele continuando a cantar sua canção, ela a delirar suas fantasias. Ao vê-lo, os olhos da louca fixam-se, abre-se um sorriso sem dentes e estica-se o braço abrindo a mão; ele simplesmente também estica o braço e, sem entender o porque, toca suavemente naquela mão, o toque dura menos que um segundo e os olhos não se encontram.
Ele continua a caminhar, agora sorrindo da atitude da louca, ela continua a delirar agora sorrindo do "carinho" recebido.

sábado, 6 de abril de 2013

Nem Tudo Está Perdido

Sentada no sofá, percebe-se as pernas curtas balançarem e os calcanhares tocarem levemente o tecido do móvel; as mãozinhas cruzadas sobre as coxas devidamente cobertas pelo vestido branco com pequenas estampas vermelhas, o rostinho moldurado com madeixas negras e a face entristecida com olhinhos fundos e penosos. A pequena, em frente a TV assiste ao desenho animado que, por instantes, acalenta seu coração.
Algum tempo se passa e escuta-se vindo da garagem o barulho do motor, logo um homem alto, robusto, muito bem vestido em seu terno, entra "correndo" pela sala, então a pequena salta do sofá e agarra-se às pernas do homem de terno preto: "papai, papai, vem ver o desenho comigo"! - "Não filha, não tenho tempo, não tenho tempo". Então o homem tranca-se em seu escritório e não percebe que aquele rostinho angelical agora encontrava-se molhado por numerosas lágrimas.
A porta da sala ficara aberta, a menininha ainda a chorar sai por aquela porta em direção à rua. No pequenino coração carrega um sentimento do qual não conhece, é uma dor profunda, da qual os grandes, os adultos costumam chamar de amargura, mas as crianças ainda não possuem maldade suficiente para entender tão dilacerante dor. Na cabecinha pequena os pensamentos embaralham-se e, apenas um sobressaía, ela desejava encontrar um pai.
Começara a caminhar pelo quarteirão e logo estava no calçadão central do bairro, muitas pessoas caminhavam apressadamente, entre tantas, os olhinhos pequenos "grudavam-se" nos olhos masculinos dos homens toscos que por ali passavam. A cada olhada uma decepção, pois dentro dos olhos daqueles seres a pequena encontrava os mesmos sentimentos que cansara-se de observar dentro do próprio lar. As pessoas estavam preocupadas demais com seus empregos, horários, viagens, roupas, status... e os verdadeiros sentidos da vida haviam se perdido. A pequena continuava a caminhar numa busca frustrada por um olhar que propiciasse conforto, carinho, amor, compreensão, amizade, afeto... entretanto nada encontrara.
Depois de algumas horas caminhando, raiava o sol da tarde em alto céu, agora ela encontrava-se sentadinha ao lado de uma barraca (sem vendedor, sem clientes) de caldo de cana, parecia que o transe havia passado, ela jogava uma pedrinha em outra pedrinha que estava em sua frente, de repente as lágrimas novamente jorravam de seus pequenos olhos negros e, tristemente ela começava a entender o real significado da frustração.
O céu começara a sofrer grandes transformações, ventos fortes vindos do norte trouxeram nuvens negras que rapidamente "despencaram-se" sobre a terra; os ventos cessaram-se e uma chuva grossa porém calma encharcava o chão. A menininha continuava a chorar e suas lágrimas misturavam-se àquela chuva formando uma enxurrada tristemente bela.
Após alguns instantes de choro contínuo as nuvens abrem-se e raia uma luz no céu, os pequenos olhos negros observa um ser de aparência humana, porém com características divinas, secando lágrimas em seu manto branco.
Não houve palavras. A pequena da Terra observava o ser a chorar no céu. Agora uma chorava por não ter um pai, o outro chorava por perder os filhos.
Os olhares se cruzaram, então uma sublime transformação de sentimentos ocorreu, a pequena percebeu que jamais esteve só, que sempre houve  um pai a ampará-la, a sentir por ela todos os sentimentos confortantes dos quais ela sentia-se órfã. O ser no céu sorria divinamente, percebera que nem tudo está perdido, que o homem ainda poderá regenera-se consigo mesmo e com sua fé, que a humanidade, aparvalhada momentaneamente, carrega ainda um filete de luz, de bondade, de esperança para o bem. Então a pequena entendeu que Deus existe e que este sempre estará ao seu lado, que é o pai, o grande pai. E Deus, após um choro longo transformado em chuva, agora sorria alegremente, afinal o bem ainda existe.


Está chovendo...
Crente numa prosopopeia descabida,
Essa chuva que cai,
São as lágrimas de Deus
Hidratando a minha vida. 

terça-feira, 19 de março de 2013

O Mendigo



Ao longe avistei apenas os abutres. Eles atacavam de maneira voraz os restos mortais de um animal que encontrava-se em avantajado estado de putrefação, estavam todos à beira do grande recipiente de lixo, eram muitos, duas dezenas talvez. Em primeira impressão formavam um emaranhado negro que quando os olhos fixavam-se neles o cérebro trazia alusões às formigas negras, mas não eram formigas. De longe avistei apenas os abutres!
Adiantando o passo, chegando mais próximo, pude visualizar na calçada algumas crianças aparentemente desnutridas que caminhavam lentamente sustentando seus corpos franzinhos em pernas ainda mais franzinas. Alguns metros distantes da tétrica cena que envolvia minha atenção, um Volkswagen golf branco, vinha em marcha lenta pela via, o motorista que guiava o charmoso veículo parecia também envolvido com as cenas. O carro aproxima-se dos abutres e, tal proximidade provoca neles a reação natural de defesa, todos voam.
Agora diante daquele recipiente um velho homem de aspectos funestos dividia o espaço, menos concorrido desde o vôo das aves, com as crianças franzinas, todos aparentemente famintos e necessitados, reviravam o lixo em voltas e voltas à procura do alento, tal alento ao qual não sei necessariamente descrever.
Muitas perguntas se formam quando diante de cenas assim, meus devaneios conspiraram entre si e, então comecei a cogitar quais foram as razões que levaram aquele homem até ali: és “filho das ruas”, “algum viciado”, alguém com dores excessivamente fortes a ponto de tê-lo entregado-se ao desdém de uma “vida sem razão” ou quem sabe ainda, alguém com tantas razões que torna-se necessário o doloroso ato que “representa”; as conjecturas são muitas, as respostas são poucas. Certamente, seja como for ele tem um passado, uma vida, uma história...
Aquele homem era excessivamente mais triste que aquelas crianças, que mesmo diante do lixo brincavam e sorriam, enquanto o homem apenas recolhia o que lhe interessava fazendo com que, lentamente, seu sujo “saco de linhagem” tornasse cheio. Talvez as crianças tragam consigo a esperança como aliado, ou, como sabido de todos, quando criança não temos, ainda, a noção exata da disparidade social e de suas consequências, talvez aquele homem também não, talvez eu também não.
Nós todos somos mendigos em alguns estágio ou aspecto, muitas vezes por imposição ou devido a segregação que a vida impõe, tantas outras por plena ignorância.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Cumprimento

O sol estava escondido, talvez tenha-se envergonhando das agressões que vem provocando nos últimos dias, ele tem atacado de maneira tão feroz, que nós, reles humanos, ficamos todos em cárcere privado diurno, aguardando o momento em que a o "astro rei" desaparece no horizonte, para assim colocarmos nossas vãs existências às ruas. Entretanto naquela tarde escondeu-se entre as nuvens.
Na praça principal da cidade uma leve brisa balançava os galhos das árvores, enquanto alguns pardais degustavam as migalhas alimentícias que encontravam ao chão. Na calçada, donde as agências bancárias encontravam-se ao lado, dois seres distintos caminhavam em direções opostas.
Ele, o típico "gente boa", o servidor público respeitável, o bom pai, bom filho, esposo e amigo. Caminhava de maneira cambaleante, seu andar é diferente de qualquer outro que já tenhamos vistos, a cada passo uma palavra cantada poderia ser ouvida por quem tivesse ouvidos biônicos, ele sussurrava sua canção preferida, de qualquer sorte, podemos afirmar que se tratava de um homem são, alguém com as características psíquicas confiáveis.
Ela, com seus cabelos curtos, com a boca sem dentes, com seus trajes mal arrumados porém limpos; caminhava de forma cambaleante, enquanto seus olhos giravam em sentido horário em um segundo e anti horário no outro; era uma senhora pertubarda por inúmeros fantasmas, não possuía as características de uma mente sã, tratava-se de uma insana, de alguém sem o equilíbrio psíquico considerado natural.
E ambos iam em seus destinos, para um tudo parece transparente, para outro a obscuridade está no centímetro à frente do nariz, mas todas essas afirmações são conjecturas, não se sabe ao certo o acontecimento do próximo segundo.
E continuavam a caminhar. Aproximaram-se um do outro em suas razões e contradições, ele continuando a cantar sua canção, ela a delirar suas fantasias. Ao vê-lo, os olhos da louca fixam-se, abre-se um sorriso sem dentes e estica-se o braço abrindo a mão; ele simplesmente também estica o braço e, sem entender o porque, toca suavemente naquela mão, o toque dura menos que um segundo e os olhos não se encontram.
Ele continua a caminhar, agora sorrindo da atitude da louca, ela continua a delirar agora sorrindo do "carinho" recebido.